saul martins

Vida Circense

Vivi momentos de emoção e lazer proveitoso a contemplar a exposição de arte figurativa denominada O circo da minha infância, constituída por vinte e duas pinturas da artista plástica Marina do Vale.

Bem empregado o título da coleção, pois cada tela equivale a uma representação de circo: equilibrista sobre roda, outro sobre esfera, acrobacias em trapézio, malabarismo em cima de cavalo, bamboleios, perna-de-pau, escambota e alegrias de palhaço.

Estava completo o cenário.

Duas telas me prenderam especial atenção, porque expressam, admiravelmente, depressão de palhaço, crise de tédio ou melancolia. Ditos quadros trouxeram-me à mente o lindo soneto O Palhaço, do Padre Antônio Tomás. É bem de ver um dos tercetos:

“Aos aplausos da turba ele trabalha

Para esconder no manto em que se embuça

A cruciante angústia que o retalha”.

Acompanhado por minha esposa Julinda, estive cerca de uma hora no animado circo pictoricamente armado pela óptica esplêndida e mágico pincel de Marina do Vale, pleno de emoções e aspectos atraentes.

Em verdade, o circo marca a nossa vida de criança e dele jamais se esquece, mantém-se vivo na memória de todos nós.

A pintura sempre foi veículo de expressão, certamente porque envolve a emoção. Penso que Deus estava emocionado quando fez o mundo.

Com sua arte maravilhosa, a artista plástica Marina do vale tornou visível a idéia de beleza, valor eterno que ela sabe aprisionar nas telas. Sua pintura ultrapassa a simples comunicação e entra no plano superior e infinito da arte pura, livre e bela.

Belo Horizonte,  3 de outubro de 2001 .

Saul Martins (1918 – 2009)

Crítico de arte

Doutor em Ciências Sociais