sebastião rocha

AS MÚLTIPLAS FACETAS DA OBRA DE MARINA JARDIM

SINGULAR E PLURAL

A capacidade de criar e de expressar do ser humano confirma-se, cada vez mais, como infinita. Os limites do homem são os limites de sua própria humanidade.

As artes nos mostram como podemos estender, mais e mais, intensamente, os limites do possível. Ir ao encontro da Utopia, do não-feito ainda!

Se estas afirmações se aplicam para todos os campos das artes, o que se destaca como marca individual neste universo de possibilidades de criação, de leituras e re-leituras da vida, de interpretações e de expressões de nossos sonhos, crenças, valores, e devaneios?

– A individualidade da criação e a singularidade da obra de arte!, é a resposta.

Somente aprendendo e apreciando o singular de uma obra de arte, poderemos entender a pluralidade de nossa cultura, a diversidade de nossa gente e a infindável riqueza de recursos de nossa humanidade.

Marina Jardim é um exemplo de artista singular e plural.

Singular na forma e na técnica – arrojadas – de lançar cores fortes e muito rítmo em suas telas. Seus quadros tem a sua marca e sua identidade. Se reconhece de longe um Marina Jardim.

Plural porque expõe todas suas lembranças e experiências, vistas, vividas, aprendidas e armazenadas em nosso inconsciente coletivo, gerador de nossa mineirice e brasilidade.

FORMA E CONTEÚDO

Se olharmos com cuidado as cores fortes e misturadas, os traços firmes e a técnica apurada nas telas de Marina Jardim, podemos apreender a riqueza e a beleza de seu trabalho.

Se olharmos as mesmas telas por seus conteúdos  marcados por histórias e imagens de infância, rítmos e danças populares, podemos aprender muito do dia-a-dia das pessoas que vivem no interior da cultura brasileira, percorrer pelas telas a vida presente no sertão das gerais. As marcas em Marina vieram de sua meninice lá prás bandas de Rubim, no Vale do Jequitinhonha.

Se nos deixarmos levar pelas pinturas e telas de Marina, se nos misturarmos às suas cores e rítmos, com certeza vamos nos sentir parte da festa do Rosário, cair nos batuques, rir dos palhaços nos circos, correr atrás dos bois Janeiro e cantar com as folias de reis.

Nela, arte e vida se retratam, se permitem, se possibilitam! E quando se fundem numa tela, nos tornam cúmplices e herdeiros.

Só os artistas conhecem o ponto do doce deste encontro do homem com sua humanidade. Marina cada dia mais se aprimora nessa arte de nos fazer singular e plural, forma e conteúdo, cor e rítmo, herdeiros e produtores de humanidade.

Tião Rocha

Antropólogo

Educador Popular

Folclorista

Presidente do CPCD